Quando jogamos Silent Hill 2 pela primeira vez, sentimos um choque ao descobrirmos que Maria não é real. Como ela pode não ser real? Ela pensa, fala, age, tem desejos, vontades, medos, isso não a torna real? Ser sensciente não é o bastante para ser real? Para entendermos, temos que antes entendermos como funciona a cidade de Silent Hill e qual a conexão disso com o ocultismo.
Silent Hill, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não manifesta seus demônios interiores, mas sim formas-pensamento, pensamentos que tomaram forma e se tornaram outra coisa. Isso fica bem claro quando Laura está dentro do hospital e encontra ursinhos de pelúcia, que eram objetos de desejo dela. Essas formas-pensamento não necessariamente precisam ser desejos, podem ser também autopunições ou mesmo materializações de traumas, ou, em alguns casos, conceitos abstratos. A mente de James, se analisada de uma perspectiva freudiana, é dividida entre ID (monstros, a parte irracional), Ego (o próprio James racional) e o Superego (Pyramid Head, a parte composta pelos valores e moral de James, que limita o ID e pune o Ego por ouvir o ID), e isso também é uma materialização de conceito. Mas a semelhança de tudo isso é que todas essas materializações se tratam apenas de materializações inconscientes, sem vontade própria, e que existem apenas como submissos à própria vontade do James, ao contrário de Maria, que segue outra lógica.
Maria não é apenas a materialização de uma forma-pensamento. Maria é um pensamento vivo, algo que chamamos de tulpa, dotada de vontade própria, desejos e vontades. É um ser completo nascido de um pensamento, uma materialização de tudo que o James amava em Mary, da Mary antes da doença e antes de se tornar abusiva. Alguém que só existe com o único e exclusivo objetivo de ter o amor de James. Ela não é abusiva, não repudia James, não torna a vida do James mais difícil que já é. É a materialização do desejo de James de ter Mary de volta. E isso é o que a torna infeliz.
Maria realmente ama James, aliás a única função de Maria em toda sua existência é conhecer James e se apaixonar por ele, mas o próprio James não é capaz de superar o próprio luto e se desprender da perda de Mary, o que é a raiz do sofrimento de Maria e o motivo pelo qual ela se torna o vilão final do jogo. Em vários momentos, Maria reclama que estava em perigo, e James nem sequer tentou a ajudar, além de que a mesma reclama que o James não dá atenção para ela.
Em um dado momento, Maria abre mão da própria individualidade, assumindo a forma de Mary para, em um ato desesperado, tomar para si o amor de James. Mas até nisso ela falha, gerando dor e ódio.
Até mesmo os finais mais prováveis do jogo são uma forma de tortura para Maria, onde ela é forçada a aceitar o fato de que jamais será Mary, e jamais terá o amor de James. Mesmo nesses finais, Maria se despede de James implorando por ele.
Maria é um desejo, mas também é pessoa e entidade. Ela é o que acontece quando um ser humano usa sua centelha divina para criar algo com vontade própria e lhe dá um propósito inalcançável. Maria foi criada para amar e ser amada, mas, por não conseguir, se torna apenas uma sombra do quê poderia ter sido, e não o quê realmente aconteceu.
Pense nisso na próxima vez que se sentir tentado a dar consciência a um servo astral.


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