Todo mundo aqui que me acompanha sabe a relação que a magia ocidental tem com o cristianismo. Mas, para que possamos utilizar os conhecimentos desses grupos, é importante que tenhamos um conhecimento básico sobre o que é e no que crê cada grupo religioso.
Como esse texto não se destina a ser um artigo criminal, mas sim apenas um texto informativo, informações referentes a crimes de membros dessas seitas vão ser deixados de lado, tanto para evitar polêmicas quanto por não acrescentarem em nada ao debate.
Dito isso, vamos conhecer um pouco esses grupos, listando brevemente suas crenças e características.
Gnósticos
Denunciados nos primórdios do cristianismo pelos pais da igreja, em especial Irineu de Lyon, os gnósticos acreditavam, resumidamente, que estamos presos dentro de um mundo material falho, em um ciclo eterno de reencarnações, e que, através de um conhecimento transcendental secreto, seria possível se libertar da matéria e acessar o deus transcendental acima do demiurgo.
Embora a maioria dessas seitas tenham desaparecido, temos movimentos célebres que ganharam notoriedade, como os cátaros, os ofitas, os marcionitas e os cainitas, grupos cujas crenças acabam retornando de tempos em tempos.
Várias das seitas abaixo são descendentes espirituais do gnosticismo, herdando fragmentos do mesmo (como um Jesus semi-divino lutando contra um sistema religioso previamente estabelecido com tendências malignas ou caóticas) ou buscando uma estrutura hierárquica exclusivista e segregacionista, onde as partes mais baixas da pirâmide são alimentadas por fragmentos de conhecimento das castas mais altas.
Testemunhas de Jeová
Os Testemunhas de Jeová são um grupo sectário que se dividiu a partir dos Adventistas do Sétimo Dia. Guardando o sábado e negando a Trindade, os Testemunhas de Jeová são conhecidos por serem um grupo extremamente legalista e anticatólico (já vamos falar sobre).
As doutrinas dos Testemunhas de Jeová são bem distintas, incluindo rejeição da imortalidade da alma, rejeição da Trindade, pregação do texto em sua forma mais literal possível (com ressalvas, mas já vamos chegar lá), desincentivo a estudo formal ou estudo longe das mãos do Salão do Reino, entre outros.
As regras dos Testemunhas de Jeová, caso feridas, causam desassociação (eles te expulsam da igreja deles e de todo o convívio social), além de serem
Algumas das regras explícitas ou implícitas deles incluem:
- proibição de transfusões de sangue
- desencorajamento de relações amorosas com pessoas de fora da Igreja
- proibição ou desencorajamento da busca de conhecimento fora dos Testemunhas de Jeová
- desencorajamento de estudo formal (caiu por terra há pouco tempo, mas no século XX inteiro o ensino acadêmico era visto com maus olhos como "educação do mundo")
- proibição de entretenimento com algum tópico de ocultismo (animais falantes, magos, fantasmas, lobisomens, monstros, etc)
- restrição de estudo sobre práticas pagãs, e proibição de frequentar qualquer evento que acreditem que possa ter elementos sincréticos com paganismo (Natal, Páscoa, aniversários, ano novo, festas de colheita, festa da uva, entre outros)
- regras vestimentárias (até pouco tempo atrás, não se podia usar barba na organização, por exemplo)
- regras para permissão para denúncias formais de crimes sexuais (eles são bem rígidos quanto a isso, e é um dos tópicos mais controversos)
- obrigação da observância das regras alimentícias de Levítico
- obrigação da observância do sábado
As partes mais interessantes são suas publicações. Lembra quando eu disse que tinham ressalvas sobre a pregação da Bíblia no literal e sobre suas doutrinas? Então, eles são conhecidos por adulterarem as escrituras, falsificando contextos, removendo ou adicionando palavras, entre outros, e todas as demais publicações giram ao redor dessas manipulações e falsificações. Algumas das explicações deles também são, no mínimo, controversas, como dizer que receber uma transfusão de sangue é uma forma de canibalismo, ou justificando a negação da cruz alterando seu formato, ambas informações refutadas pela história ou pela própria lógica.
De todos os grupos, os Testemunhas de Jeová são os mais hostis a outros grupos religiosos, os acusando de nazismo, intolerância, e os ameaçando com a destruição final no armagedom. Entretanto, ao mesmo tempo, são os grupos menos significativos, já que, como a maioria é proibida de buscar ativamente informações sobre outras religiões, normalmente eles acabam não se envolvendo em conflitos significativos.
Adventistas do Sétimo Dia
A Igreja Adventista do Sétimo surgiu nos Estados Unidos no chamado Segundo Grande Despertar (um período de reavivação da fé no final do século XVIII e início do século XIX) quando Guilherme Miller falhou em profetizar o retorno de Jesus Cristo, causando o evento conhecido popularmente como O Dia da Grande Decepção. Nisso, alguns dos seus seguidores, como Hiram Edison, Ellen White e John Nevins Andrews, reinterpretou a profecia de forma a dizer que na verdade isso se tratava de um pré-julgamento, onde Jesus entrou em um salão celestial ou alguma coisa do tipo. Após o surgimento, a maior parte das doutrinas dessa igreja foi fundamentada em um misto das profecias de Ellen White e de textos bíblicos lidos da forma mais legalista e heterodoxa possível.
Este grupo é normalmente hostil contra os seguintes grupos:
- católicos: os consideram a prostituta da Babilônia, o símbolo máximo de degeneração do cristianismo, uma instituição pagã e herética, e quase toda a sua apologética se resume a atacá-los, inclusive de forma caluniosa;
- ortodoxos: além de todas as críticas contra os católicos, a existência dos ortodoxos viola certos pilares da fé adventista, como as acusações adventistas sobre o uso tardio do deuterocânone, a crença que os católicos arbitrariamente escolhiam a proibição de veiculação de informação em idioma vernacular, as acusações sobre iconodulia tardia, entre outros;
- luteranos: elogiam Lutero por se apartar de Roma, mas criticam basicamente todas as crenças luteranas, como a cosubstanciação, a regeneração batismal, o pedobatismo, o culto aos domingos, o uso do deuterocânone, o casamento religioso e não necessariamente civil, entre outros;
- calvinistas: criticam o pedobatismo de certas vertentes calvinistas, a dogmática do sistema de crenças, a abolição das leis alimentares e possuem críticas à ceia, inclusive com o uso do vinho (bebida alcoólica é proibida pra eles, inclusive com eles negando parcialmente certos trechos bíblicos para tal);
- testemunhas de Jeová: são religiões com origem em comum, sendo que ambas são hostis uma com a outra hoje por seu cisma, que ocorreu quando Russel (criador da Sociedade de Estudos Bíblicos, e precursora da Torre de Vigia) se envolveu em certas polêmicas (tentou mandar demais dentro de sua comunidade adventista, teve conduta sexual imprópria com uma empregada, expulsou a esposa de casa e foi acusado publicamente de ser membro tanto de uma loja maçônica quanto de uma sociedade ocultista), o que foi o estopim para uma série de conflitos entre o grupo que culminou em seu cisma definitivo e irrevogável;
- evangélicos, batistas e pentecostais: guardam o domingo.
Além dos conflitos acima, os adventistas também creem nos escritos da suposta profetiza Ellen Gould White como sendo "a luz menor que aponta para a luz maior [que é a Bíblia]", considerando mandatório aos adventistas crer nos escritos de sua profetiza para se manter unidade de fé. Porém, os escritos da Ellen White eram no mínimo estranhos, e muitos deles contradizem até mesmo as escrituras. Algumas coisas estranhas que ela já declarou:
- Que seus escritos eram palavras dadas diretamente por Deus, e não apenas uma visão
- Que era vedado o casamento entre pessoas de raças distintas (Mensagens escolhidas II, capítulo 42)
- que homens cristãos negros sábios são chamados ao trabalho enquanto homens brancos devem ser escolhidos para a liderança
- Que o Papa se declarou Deus (O Grande Conflito, c. 3, p. 50, e o Papa nunca disse isso)
- Que os judeus sobrecarregaram o sábado com imposições religiosas (O Grande Conflito, c. 3, p. 52, e quem sobrecarrega é a Bíblia, em Números 28:9, por exemplo, com a ritualística judaica)
- Que Miguel ressucitou Moisés e o levou para o céu, e dizendo que Miguel e Jesus são a mesma pessoa (Primeiros Escritos, p. 164, A Verdade Sobre os Anjos, c. 9, p. 104)
- Que os anjos tem que bater ponto pra poderem entrar e sair do céu (Primeiros Escritos, p. 39)
- Que o universo tá cheio de árvores da vida e cheio de ETs que não caíram no pecado original (Primeiros Escritos, p. 40)
- Que, se você não observar o sábado, vai pro inferno (Testemunhos Seletos, vol. III, p. 23, contrariando Gálatas 4:9-11 com Paulo temendo por quem usa a guarda de um dia como meio pra obter a salvação, e contrariando Colossenses 2:16-17 onde Paulo critica aqueles que criticam o julgamento sobre guardas de dias de festa, sábados, sobre jejuns e outras práticas do tipo)
Apesar de serem normalmente classificados como protestantes ou evangélicos, eles não possuem tantas crenças em comum com os mesmos, visto que a autoridade hierárquica da organização e a autoridade profética de Ellen Gould White são colocados acima das escrituras sagradas de sua própria religião, fazendo exatamente o que acusam os católicos de fazerem.
Mórmons
Os mórmons tem um livro próprio (o Livro de Mórmon) como complemento à Bíblia, contando relatos da vida de Jesus nas Américas (algo controverso). Embora eu tenha um desses na minha biblioteca, é inegável que o livro de Mórmon, ainda que seja interessante, muito provavelmente é uma fraude.
Sobre suas crenças, muitas são consideradas estranhas, como o batismo vicário, dom de línguas, uma espécie de triteísmo, um planeta mágico, entre outras coisas. Algumas crenças também mudaram com o tempo, como a poligamia institucionalizada (usada inclusive como forma de segregação por alguns mórmons), ou a maldição de Cam (considerada extremamente ofensiva, impedia pessoas de certas etnias a ascenderem dentro da instituição), o que torna o grupo no mínimo questionável.
Não tem muito a se dizer sobre esse grupo em relação aos demais. Eles não protestam contra os demais, e sempre se colocam apartados deles, raramente entram em conflitos, raramente buscam ativamente esses conflitos e raramente deixam que o conflito escale.
Espíritas
Grupo interessante, já que mistura cristianismo, doutrinas orientais e gnósticas sobre reencarnação, necromancia e até uma crença muito específica sobre karma que muitas vezes coloca as vítimas de certos acontecimentos na posição de algozes (mas isso é assunto para outro momento). Já afirmaram não acreditar na Bíblia, usam outros evangelhos, praticam ativamente necromancia, entre outras práticas consideradas extremamente controversas, mas, ainda assim, curiosamente, exigem puxar para si a alcunha de cristãos.
Esse movimento está intimamente ligado também à umbanda, possuindo vários aspectos comuns, principalmente pela reconstrução da religião afro-americana possuir aspectos e explicações metafísicas herdados parcialmente do espiritismo (embora as crenças sejam distintas por particularidades de diversos tipos). Por causa disso, não é incomum ver espíritas se tornando umbandistas, ou vice-versa.
Evangélicos
Esse é o grupo mais diverso entre os citados, porque não apenas não possui uma tradição clara como também não possui o mínimo interesse de a desenvolver. Entre os integrantes desse grupo, você tem credobatistas, judaizantes, quem defende ordenação de mulheres e o casamento homoafetivo, entre outros.
Num geral, grupo criticado por vários fatores, como as exigências de pagamentos dizimais (prática que só era obrigatória aos judeus em virtude do grande templo), falsificações de curas milagrosas e até denúncias de violência de diversos tipos, inclusive contra menores. Não significa necessariamente que todos os movimentos evangélicos possuem esses problemas, mas que esses problemas são problemas comuns dentro dos movimentos evangélicos.
Curiosamente, apesar de ser um dos grupos mais hostis ao ocultismo, são os que mais praticam, usando salmos pra fins específicos (inclusive imprecatórios), praticando bibliomancia, entre outros, o que é, no mínimo, irônico. A teologia da prosperidade, por exemplo, é uma mistura entre misticismo pagão relacionado ao material com lei da atração, e a forma como eles confundem a Palavra de Deus (como mostrado em João 1:1) com a Bíblia é uma prova inquestionável de instabilidade teológica, misturando conceitos pagãos em torno da objetificação de uma divindade com conceitos cristãos e neocristãos.
Não-denominacionais
Aqui tem de tudo: antitrinitários, triteístas, seguidores de Yauh, aniquilacionistas, modalistas, usuários de drogas com cunho religioso, entre outros. Não tem muita regra e nem muita limitação, tem gente que frequenta o culto antitrinitário de dia e de noite vai no root doctor mais próximo pra feitiço salmífico pra prosperidade.
Normalmente são grupos disfuncionais que só se mantém unidos enquanto se mantém em comunidades pequenas, desmoronando quando crescem até certo tamanho ou reestruturando seu próprio culto para criar uma forma de identidade.
Conclusão
Embora a diversidade religiosa atual tenha suas vantagens, é importante distinguirmos diversidade religiosa racional (como a promovida por crenças válidas com riqueza cultural e espiritual) da diversidade nominal (meramente quantitativa, com grupos que creem mais ou menos nas mesmas coisas, sem se distinguirem muito entre si). Além disso, o misticismo cristão decadente influencia no surgimento de diversos desses grupos, causando o agravamento da crise religiosa cristã.
Entretanto, algumas vantagens existem, como o estudo mais amplo e diverso das escrituras sagradas cristãs (muito útil a um praticante de hoodoo), surgimento de formas criativas de bibliomancia e até mesmo uma maior tolerância religiosa na sociedade como um todo.

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